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O que a composição do leite nos diz sobre a alimentação das vacas?

O que a composição do leite nos diz sobre a alimentação das vacasAtualmente, existe uma tendência no Brasil de valorização do aumento dos teores de gordura e proteína do leite, sendo muitos os laticínios que já bonificam por sólidos.

Além disso, vaca com alta produção de leite e alto teor de sólidos é sinônimo de vaca saudável. Sendo assim, torna-se importante monitorar a composição do leite produzido, que também traz informações importantes para realização de ajustes no manejo alimentar e na formulação da dieta. 

Composição do leite em relação à ferramenta nutricional

 

1- Cuidado com as médias do tanque

Esses números não permitem o monitoramento individual ou mesmo dos lotes de animais. Como a dieta é oferecida em lotes, o acompanhamento deve ser no mínimo a nível de lote. No entanto, a amostragem do leite do lote é muito mais difícil do que a amostragem de animais individuais durante a ordenha. Dessa forma, recomenda-se a análise individual de leite para utilizar os resultados como ferramenta nutricional.

2- Conhecer o teor de sólidos médio produzido pela raça utilizada na fazenda, para usar como referência. 

Existe uma pequena variação entre raças, como mostra a tabela 1. Apesar de serem bons valores de referência, existe uma variação ao redor dos números médios decorrentes da genética de cada rebanho. Dessa forma, qualquer ajuste nutricional deve ser feito a partir de uma linha base com informações específicas de cada propriedade.

Tabela 1. Teores médios de gordura, proteína e relação gordura: proteína do leite produzido por vacas de diferentes raças.

composição do leite-1Fonte: Teixeira, 2003; Ribas, 1998; Verneque, 2005; Chalfun, 2009.

3- Entender qual é o real potencial que a nutrição tem de alterar sólidos

Diversos outros fatores influenciam nos teores de gordura e proteína, sendo os principais: genética, ambiente, nível de produção de leite, estágio de lactação, mastite, estação do ano e ordem de parição. No entanto, a nutrição tem grande impacto sobre o teor de sólidos. Segundo Looper, 2012 o teor de gordura pode variar até 3 unidades percentuais por mudanças na dieta, enquanto o teor de proteína pode variar até 0,6.

Nutrição e gordura no leite

 

A gordura do leite pode vir de três fontes: ácidos graxos com menos que 16 carbonos, ácidos graxos com 16 carbonos e ácidos graxos com mais que 16 carbonos. 

A fração da gordura do leite que é formada a partir de ácidos graxos com menos que 16 carbonos corresponde de 20 a 30% do total. É a chamada síntese “de novo”, que ocorre na glândula mamária, via complexo enzimático e que tem como precursores ácidos graxos de cadeia curta vindos do rúmen (acético e butírico).

Já a fração que é formada a partir de ácidos graxos com mais que 16 carbonos corresponde de 35 a 40% do total. Essa fração não é sintetizada na glândula mamária, mas sim do transporte para dentro da glândula mamária de ácidos graxos pré-formados, provenientes da dieta ou da mobilização corporal. Por fim, a fração que é formada a partir de ácidos graxos com 16 carbonos corresponde de 35 a 40% do total. Essa fração tem origem mista, sendo parte formada na glândula mamária e parte proveniente da dieta ou da mobilização corporal.

A gordura do leite é um importante indicativo de saúde ruminal. Mais especificamente, a gordura do leite pode ser reduzida em duas condições: baixo pH ruminal (dietas de baixa fibra ou baixa efetividade física) e/ou presença de lipídeos poliinsaturados na dieta (suplementação com óleo de soja, por exemplo). Ambas as condições levam à formação do ácido linoleico conjugado trans-10, cis-12 no rúmen que, quando absorvido, inibe tanto as enzimas lipogênicas que atuam na síntese “de novo” na glândula mamária, quando as enzimas que transportam ácidos graxos pré-formados para dentro da glândula mamária. A combinação desses fatores resulta no fenômeno conhecido como depressão de gordura no leite.

O que devemos fazer?

 

Na prática, o que devemos fazer é fornecer uma dieta que atenda a demanda energética do animal sem prejudicar a saúde ruminal, além de garantir um bom manejo alimentar. Para isso devemos:

1- Nos preocupar com FDN fisicamente efetivo (presentes nas partículas > 8mm), teor de amido (20 a 30%) e sua degradabilidade (70 a 100%). Para o balanceamento de FDN e CNF, devemos considerar: inclusão de FDN, origem da FDN, tamanho de partícula, fonte de amido (degradabilidade varia) e diversidade de ingredientes.

Em uma situação em que as vacas estão consumindo apenas silagem de milho como forragem, por exemplo, o ideal é que menos de 20% da silagem tenha tamanho de partícula < 8mm. Essa avaliação pode ser realizada através do conjunto de peneiras Penn State. Caso isso não ocorra, será necessário incluir uma segunda fonte de fibra longa na dieta, com o objetivo de garantir a ruminação e evitar acidose.

2- Outra estratégia interessante é utilizar caroço de algodão e polpa cítrica na dieta, quando os animais estão consumindo alguma fonte de amido de alta degradabilidade, como milho reidratado ou grão úmido. É claro que a disponibilidade e preço dos insumos na região da fazenda deverão ser levados em consideração.

3- Utilizar aditivos como bicarbonato de sódio, óxido de magnésio, algas calcárias, virginamicina e leveduras, no caso de dietas mais desafiadoras. 

Pegando como exemplo o bicarbonato de sódio, diversos trabalhos mostram o papel do aditivo na manutenção do pH ruminal em momentos críticos. Martins (2018) relatou um aumento de 0,2 unidades percentuais de gordura no leite produzido por vacas recebendo bicarbonato de sódio, quando comparadas com o grupo controle. No entanto, é importante salientar que aditivos não corrigem erros na formulação e no manejo alimentar.

Erros de manejo mais comuns que reduzem o teor de gordura no leite

 

  • Fornecer uma dieta que permita seleção de partículas: vacas preferem concentrado e o consomem antes, causando acidose. Nesse caso ocorrerá uma grande variação de escore de fezes no lote, uma vez que as vacas dominantes comerão mais concentrado;

 

  • Lotação e espaço de cocho: ter menos que 60 cm de espaço de cocho por vaca aumenta o risco de reduzir o teor de gordura no leite;

 

  • Monitoramento do teor de matéria seca da silagem: pode ter grande impacto sobre a relação volumoso: concentrado. A dieta é formulada com base na matéria seca, então é importante monitorar o teor de matéria seca do volumoso para adequar a quantidade em matéria natural;

 

  • Conforto e ruminação: garantir conforto térmico e qualidade de cama é essencial para maximizar a produção de gordura na glândula mamária. O que estão fazendo as vacas que não estão comendo, bebendo água ou na ordenha? O ideal é que estejam deitadas e ruminando.

 

Como monitorar a dieta?

 

  • Produção de leite: a pesagem de leite deve ser feita de maneira mais frequente possível, sendo uma fonte barata e rápida de informação, além de ser essencial para tomada de decisão na fazenda;

 

  • Análise de leite individual ou por lote: solicitar análises de leite individuais ou por lote tem um bom custo benefício e permite a tomada de decisões com maior critério em relação à dieta, além de permitir diagnosticar distúrbios metabólicos;

 

  • Escore de fezes: o escore de fezes varia de 1 a 5. O ideal é que esteja ao redor de 3 e que ocorra a mínima variação possível entre animais;

 

  • Escore de condição corporal: as vacas devem estar com ECC de 3 a 3,5 no parto, sendo que ocorrerá uma queda de escore no início da lactação. As vacas devem recuperar escore no terço médio e final de lactação. É fundamental evitar que as vacas cheguem ao parto gordas ou magras.

 

 

A cana de açúcar enriquecida com ureia é uma boa alternativa alimentar para bovinos de leite durante o período da seca, quando os animais possuem maior necessidade de suplementação.

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João Pedro Andrade Rezende

João Pedro Andrade Rezende

Zootecnista, Mestrando em Nutrição e Produção de Ruminantes, é aluno do UFLALEITE, núcleo de estudos da UFLA formado por alunos de Zootecnia, Medicina Veterinária, Agronomia e Engenharia Agrícola, sob coordenação da Prof. Marina Danes. O UFLALEITE tem o objetivo de difundir conhecimento e tecnologia a pequenos produtores de leite, e a complementação do treinamento dos alunos na formação profissional. Para saber mais, visite o perfil do Instagram @uflaleite.