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Escola assume compromisso com o leite




escola assume compromisso com o leite

Artigo publicado na Revista Balde Branco, por Nelson Rentero em 25 de outubro de 2017.

A escola Fundação Roge não é nova: foi criada há 18 anos. Por ela já passaram mais de 1.300 alunos de cerca de 300 muni­cípios de diferentes estados. Desde o início, sempre investiu na formação integrada do ensino con­vencional do segundo grau regulamen­tado pelo Ministério da Educação com cursos técnicos voltados para agricul­tura, pecuária, turismo e agroenergia. Uma proposta muito bem-sucedida, segundo ex-alunos. Entretanto, há dois anos, a direção resolveu ajustar o plano original e se voltar para uma demanda pontual: formar técnicos especializados em pecuária de leite.Foi assim que surgiu o que vem sendo chamado Academia do Leite, escola mantida pela Fundação Roge, localizada em Delfim Moreira, no sul de Minas Gerais. A decisão envolve estudantes na faixa de 14 a 18 anos, de ambos os sexos, com aulas em pe­ríodo integral. O curso é gratuito e está acessível para quem passar por uma prova que anualmente seleciona 50 candidatos, cerca de um quinto do nú­mero de inscritos. O projeto representa a primeira escola do país dedicada à formação e capacitação de especialis­tas na produção leiteira.

Por trás da iniciativa não está o go­verno, tampouco conta com seu apoio ou de alguma entidade ou instituição oficial. Está, sim, a realização de um projeto planejado há quase duas dé­cadas por dois produtores de leite e sócios de uma empresa, a Roge, do segmento de distribuição de produtos de higiene pessoal: Getúlio Raimundo de Assis e Rogério Campos Lima. “Sempre acalentamos a ideia de fazer algo de bom à sociedade transferindo um pouco do que ganhamos como empresários. E a escola se mostrou a melhor opção para isso”, diz Assis.

A turma atual, nos três anos de duração do curso, soma 73 alunos. Ao todo, são 2.400 horas no ensino médio, a cargo de nove professores, e 1.200 horas no ensino técnico, com mais sete. Na ocupação do período integral fazem parte também aulas de música, teatro, esporte e dança. “Muitos alunos des­cobrem talentos com essas práticas”, diz a diretora Carmem Lucia Alves, revelando que a evasão é mínima. Ela coordena o trabalho comprometido dos professores com o formato diferenciado da proposta educacional.

Sinais disso estão no próprio pro­cesso de admissão dos alunos. Uma redação e a entrevista com o estudante e sua família definem a seleção. “Que­remos identificar a afinidade do candidato com o campo, a adequação do seu perfil e sua origem para o curso e para a atividade leiteira, a importância do estudo para melhoria do seu quadro so­cioeconômico, entre outros fatores”, relata. A escola não oferece alojamento nem refeições. Os estudantes que não moram nas proximi­dades ocupam pensões ou casas alugadas na cidade, onde se alimentam e moram durante a semana.

A organização curricular é da equipe de professores. Para o curso médio, segue-se o modelo sugerido pelo Ministério da Educação e Cultura, enquanto para o curso técnico adotam uma matriz curricular específica para o curso de bovino­cultura leiteira, com disciplinas como nutrição, qualidade do leite, forragicul­tura, melhoramento genético animal, cria e recria, gestão ambiental, reprodução, uso e conservação do solo, in­glês técnico e metodologia científica. Detalhe: no curso de nível médio, sempre que possível, as aulas são con­textualizadas com o meio rural e a atividade leiteira.

Na realidade, a orientação pedagógica quer requalificar a formação profissional. Segundo recente reportagem da Folha de São Paulo, redigida por Lobo Braga, apenas 8% dos alunos de ensino médio no Brasil pertencem ao nível técnico. Trata-se de um número muito baixo quando comparado à situação de países europeus. Por exemplo: na Finlândia, na Áustria e na Alemanha, alunos do curso técnico representam 70%, 69%, e 47% dessa etapa de educação. Segundo o autor, para reverter a posição brasileira é preciso que as escolas técnicas estejam muito mais próximas do mundo do trabalho real. Um compromisso plenamente cumprido pela escola da Fundação Roge.

Parcerias com Empresas e Fazendas

 

A escola está localizada numa área de 18ha. Muitas das aulas práticas ou estágios do curso técnico acontecem nas 20 fazendas de leite parceiras da escola. Apoiam também 17 empresas, de diferentes segmentos da cadeia leiteira. A revista Balde Branco faz parte da lista. “Não temos capacidade de ensinar tudo. Por isso, precisamos de especialistas em nutrição, sanidade, reprodução, informática, entre outros setores. A contribuição dos parceiros se dá através de aulas especiais com seus profissionais e do fornecimento de materiais”, cita Assis.

A manutenção financeira da escola fica por conta da Fundação Roge, que banca 80%dos custos, sendo o restante amortizado pelos apoiadores, voluntários, pais de alunos e contribuições de duas outras empresas ligadas à instituição, a AgroRoge, de revenda de produtos agropecuários, e o Nicatec, que faz estudos sobre o meio ambiente e análise de água. “ A Fundação mantenedora da escola tem certificação de filantropia, podendo receber doações de empresas tributadas pelo lucro real e oferecer benefícios de isenção fiscal”, observa a gerente de Marketing e Estratégia, Flávia de Moura Xavier.

Cita também que 89% dos alunos são inseridos no mercado tão logo se formam e concluem o período de estágio. Este índice faz com que Assis se mostre satisfeito com o resultado. “Nossa meta sempre foi formar bons técnicos e também boas pessoas para o setor que move o Brasil”, cita ele. Priorizar a pecuária de leite tem explicação: “Notei, como produtor, que o mercado tem veterinários e agrônomos de sobra, mas faltam técnicos prontos e capazes. Daí, a razão de assumirmos essa missão”.

Tal impressão foi reforçada num contato com Paulo Machado, professor da Esalq - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP e diretor da Clínica do Leite, uma das instituições apoiadoras. “A partir de sua larga experiência no magistério e dos contatos com fazendas pelo país, ele lançou o desafio para a escola formar apenas técnicos em pecuária de leite. Ele disse que havia uma demanda enorme que há muito não era atendida, comprometendo a eficiência do setor leiteiro”, conta Assis. Na contribuição do professor veio também a valorização da matéria de gestão, destacando a importância deste ensinamento na formação técnica do estudante.

“Formar técnico é até fácil. O importante é o estudante entrar no negócio com uma boa noção de gestão, ou seja, capacitado para fazer com que as coisas aconteçam”, destaca a diretora da Fundação. “Estamos sempre revisando nosso formato pedagógico. Não basta trabalhar só conteúdo. É preciso ter certeza que a informação vai contribuir na proposta de ensino contextualizado, com envolvimento e com o momento vivido”, completa a diretora Carmem Lúcia, observando que nesse sentido sempre fazem parte da pauta de discussões, questões envolvendo economia, política, tecnologia e atualidades.

A produtora de leite Ana Scarpa Nilo, de Itanhandu-MG, é exemplo de que cada um busca um meio para apoiar a causa. No seu caso, ela tem uma casa alugada próximo da escola para manter seis alunos do seu município. Ela própria já teve um projeto parecido, mas de menor dimensão, voltado para crianças. Chamava-se “escolinha do leite”, a qual uma vez por semana reunia um grupo de meninos e meninas para mostrar o dia a dia da atividade leiteira. “É preciso despertar interesse pelo trabalho no campo e investir na capacitação profissional e na formação de homens de bem. Só assim vamos mudar este País”, diz.

 

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Fundação Roge

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