A Contagem de Células Somáticas (CCS) é um dos principais indicadores de saúde da glândula mamária e de qualidade do leite em fazendas leiteiras. Quando o número de células somáticas sobe no tanque, o sinal de alerta acende: há algo acontecendo no rebanho que precisa ser entendido e corrigido.
Mais do que um número no laudo, a CCS alta representa perda de produção, queda na qualidade do leite, risco de perda de bonificações e aumento de custos com tratamento e descarte. Por isso, identificar a origem do problema e agir de forma estratégica é fundamental para a rentabilidade da fazenda.
Neste conteúdo, vamos entender o que significa CCS alta no tanque, como investigar a origem e quais medidas ajudam a reduzir esse indicador no dia a dia.
O que é Contagem de Células Somáticas e por que ela importa tanto?
A CCS representa a quantidade de células presentes em 1 mL de leite, principalmente células de defesa (leucócitos) e células de descamação do epitélio da glândula mamária. Em vacas saudáveis, com úbere em bom estado, a CCS tende a ficar até cerca de 200 mil células/mL. Valores mais altos geralmente indicam inflamação, quase sempre associada à mastite.
No tanque, a CCS funciona como um “raio X” do rebanho:
- Quanto maior a CCS, maior a porcentagem de quartos infectados;
- A elevação da CCS está ligada à queda de produção, alterações de composição (menos gordura, caseína e lactose) e à perda de bonificações pagas pelos laticínios;
- De forma crônica, animais com CCS alta e mastite recorrente tendem a ser descartados mais cedo do rebanho.
No Brasil, normas como a Instrução Normativa nº 76 do MAPA estabelecem limite máximo de 500 mil células/mL (média geométrica trimestral) para o leite cru refrigerado, reforçando a importância do controle da CCS para acesso ao mercado formal e à remuneração por qualidade.
CCS alta no tanque: o que esse número está dizendo?
Quando a CCS do tanque sobe, o problema não está em uma vaca isolada, e sim no conjunto do rebanho. É um indicador de que existe mastite clínica, subclínica ou animais crônicos contribuindo para aumentar a média.
De forma prática, isso pode significar:
- Maior número de quartos infectados;
- Falhas em manejo de ordenha ou higiene;
- Problemas ambientais (cama, barro, umidade, calor);
- Deficiências na manutenção e higienização do equipamento de ordenha;
- Falta de monitoramento sistemático e de tomada de decisão com base em dados.
Antes de pensar em “produto para baixar CCS”, é essencial entender de onde vem a CCS alta dentro do rebanho.
Como identificar a origem da Contagem de Células Somáticas alta?
Encontrar a origem da CCS elevada é um trabalho de investigação, que passa por algumas etapas-chave.
1. Analisar o histórico da CCS do tanque
Comece olhando os relatórios de CCS ao longo dos meses:
- A CCS subiu de uma vez ou vem aumentando aos poucos?
- O aumento coincide com época de chuva, calor intenso ou mudanças de manejo?
Esse histórico ajuda a direcionar se o problema é pontual ou crônico.
2. Separar por lotes e grupos de animais
Dividir o rebanho em grupos (primíparas, vacas de alta produção, fim de lactação, recém-paridas) permite identificar onde está a maior concentração de casos. Em muitos rebanhos, por exemplo, vacas no pós-parto e animais mais velhos são os principais contribuintes para a CCS do tanque.
3. Usar testes de triagem na fazenda
Dois testes são fundamentais para encontrar vacas problema:
- Teste da caneca de fundo escuro: usado em toda ordenha para detectar mastite clínica (grumos, alterações de cor, presença de sangue).
- CMT (California Mastitis Test) ou testes rápidos de CCS: ajudam a identificar mastite subclínica, que não aparece a olho nu, mas aumenta muito a CCS.
Animais positivos nesses testes devem ser avaliados com mais atenção e, quando necessário, ter o leite segregado e tratado de acordo com orientação técnica.
4. Investigar o tipo de mastite: contagiosa ou ambiental
Quando possível, a coleta de amostras para cultura microbiológica ajuda a identificar se o problema vem de agentes contagiosos (como Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae) ou ambientais (coliformes, outros estreptococos, etc.).
- Nas mastites contagiosas, o principal foco de atenção é a rotina de ordenha e a transmissão de vaca para vaca.
- Nas mastites ambientais, o olhar se volta para cama, piquetes, limpeza de corredores, barro e umidade.
Saber qual é o perfil predominante orienta o plano de ação.
Pontos críticos que mais elevam a CCS
Embora cada fazenda tenha suas particularidades, alguns fatores aparecem com frequência quando a CCS do tanque está alta:
Manejo de ordenha
- Ordenha de vacas com úbere sujo ou tetos molhados;
- Falhas no pré e pós-dipping;
- Uso de mesma toalha/papel para vários tetos ou vacas;
- Falta de rotina definida (linha de ordenha) e de treinamento dos ordenhadores.
Equipamento de ordenha e higienização
- Vácuo desregulado, pulsadores com problema, teteiras gastas;
- Lavagem incompleta do sistema, com formação de biofilme;
- Falhas na sequência de enxágue, detergentes e sanitização.
Ambiente e bem-estar
- Cama úmida, suja, com acúmulo de fezes e urina;
- Corredores enlameados, áreas de espera muito cheias;
- Calor excessivo e sombra insuficiente, aumentando estresse e susceptibilidade a doenças.
Animais crônicos
- Vacas com mastite recorrente que nunca zeram CCS;
- Quartos já comprometidos estruturalmente, mantendo CCS alta mesmo após tratamentos.
Estratégias práticas para reduzir a Contagem de Células Somáticas no tanque
Reduzir a CCS exige constância, não ações pontuais. Algumas medidas-chave:
1. Fortalecer a rotina de ordenha
- Fazer teste da caneca em todas as ordenhas;
- Aplicar pré e pós-dipping corretamente;
- Utilizar toalhas individuais por vaca;
- Respeitar a linha de ordenha (vacas saudáveis primeiro, crônicas por último).
2. Ajustar ambiente e conforto
- Manter camas limpas e secas;
- Evitar áreas com barro e poças;
- Garantir sombra e ventilação para reduzir estresse térmico.
3. Investir na manutenção e higienização do equipamento
- Revisar regularmente vácuo, pulsadores e teteiras com assistência técnica;
- Seguir protocolos de limpeza com água na temperatura correta, detergentes adequados e sanificação final;
- Verificar visualmente a presença de resíduos e incrustações.
4. Trabalhar com terapia de vaca seca e selante quando indicado
- Tratar vacas no momento da secagem, com produtos de longa ação, para curar infecções subclínicas e evitar novas;
- Utilizar selante intramamário, quando recomendado, para formar uma barreira física no período seco.
5. Monitorar, registrar e decidir com base em dados
- Acompanhar CCS de tanque e, sempre que possível, CCS individual;
- Registrar casos clínicos, tratamentos e respostas;
- Trabalhar metas claras com o médico-veterinário (por exemplo, aproximar-se de 200 mil células/mL ou menos).
Com essa disciplina, a CCS tende a cair de forma consistente, trazendo mais bonificações, mais leite vendido e um rebanho mais saudável.
CCS alta no tanque: problema ou oportunidade?
Enxergar a Contagem de Células Somáticas apenas como um número de punição do laticínio é perder a chance de aprender com o indicador. Quando bem acompanhada, ela se torna uma aliada da gestão: revela como está a saúde do úbere, mostra se os protocolos de ordenha funcionam e indica se há gargalos de ambiente ou equipamento.
Reduzir a CCS é um processo que começa no entendimento do problema, passa por ajustes diários de manejo e depende de uma equipe bem treinada e alinhada.