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Aleitamento automatizado de bezerras: inovação que reduz esforço




O aleitamento faz parte da rotina de qualquer propriedade que trabalha com criação de bezerras. Mas, dependendo do número de animais e da forma como o leite é distribuído, uma atividade aparentemente simples pode exigir tempo, deslocamento e esforço físico todos os dias.

Ao mesmo tempo, o manejo precisa respeitar as necessidades das bezerras. A fase entre o nascimento e o desmame exige atenção especial, já que os animais estão mais vulneráveis a doenças e distúrbios nutricionais.

É nesse encontro entre cuidado com os animais, rotina dos trabalhadores e eficiência operacional que o aleitamento automatizado de bezerras ganha espaço. Mais do que substituir uma tarefa manual por uma máquina, a automação pode ajudar a tornar processos repetitivos mais simples e padronizados. E nem sempre isso exige equipamentos complexos.

Um projeto desenvolvido por alunos da Academia do Leite/Fundação Roge mostra justamente isso: uma solução portátil e semiautomatizada construída com materiais reutilizados e de baixo custo conseguiu reduzir o tempo necessário para o fornecimento do leite e melhorar o conforto de quem realiza a atividade.

Por que o aleitamento de bezerras exige tanta atenção?

Nas primeiras semanas de vida, a alimentação tem papel importante no desenvolvimento das bezerras. Após a colostragem, a dieta líquida permanece como principal fonte de nutrientes durante a fase inicial do aleitamento. Por isso, qualidade, quantidade e forma de fornecimento precisam ser consideradas no manejo.

No aleitamento artificial, o leite pode ser fornecido por diferentes dispositivos, como mamadeiras, baldes com ou sem bico e aleitadores automáticos. Uma das vantagens desse tipo de manejo é permitir maior controle sobre o volume fornecido aos animais.

Mas existe outro lado dessa rotina: quem realiza o trabalho. Carregar recipientes, distribuir o leite individualmente e repetir os mesmos movimentos para vários animais pode aumentar o esforço necessário para realizar a atividade. É justamente nesse ponto que tecnologia e ergonomia podem trabalhar juntas.

Automação também pode cuidar de quem trabalha

Quando falamos em tecnologia no campo, é comum imaginar robôs, drones, sensores e grandes sistemas digitais. Mas inovação também pode estar em uma solução simples criada para resolver um problema concreto da rotina.

No aleitamento de bezerras, a ergonomia é especialmente relevante porque o trabalho pode envolver esforço repetitivo e posições inadequadas. O estudo que deu origem ao MILKCAR destaca que práticas ergonômicas podem contribuir para reduzir esforço físico e desconforto durante o manejo diário.

Isso muda a pergunta. Em vez de pensar apenas em “como alimentar as bezerras?”, também podemos perguntar: Como realizar esse manejo com eficiência sem sobrecarregar quem executa a atividade todos os dias?

Foi a partir desse problema que nasceu o MILKCAR.

MILKCAR: uma solução criada para facilitar o aleitamento

O MILKCAR é um modelo portátil e semiautomatizado para distribuição de leite às bezerras. O protótipo foi construído utilizando um latão de leite de 50 litros, metais reutilizados, bomba de sucção, mangueira atóxica, gatilho, bateria e rodas de carrinho de mão.

A proposta era facilitar o transporte e o fornecimento do leite, diminuindo a necessidade de realizar manualmente todo o processo com os latões. Em vez de carregar e despejar o leite repetidamente, o trabalhador utiliza o sistema portátil para distribuí-lo.

É uma aplicação interessante de aleitamento automatizado de bezerras porque mostra que automação não precisa significar necessariamente uma estrutura sofisticada de alimentador automático. Nesse caso, os alunos buscaram adaptar tecnologia à realidade de uma tarefa cotidiana da produção leiteira.

Como o MILKCAR foi testado?

O protótipo foi colocado à prova em duas propriedades leiteiras de Delfim Moreira (MG) que utilizavam aleitamento artificial. Na Fazenda Serra Bonita, foram avaliadas seis bezerras em aleitamento. Já na Agropecuária Campos Lima, o teste envolveu um setor com 43 animais.

Os alunos analisaram três aspectos:

  • temperatura do leite;
  • tempo necessário para realizar o aleitamento;
  • conforto do trabalhador durante a atividade.

A percepção sobre ergonomia foi avaliada por meio de um questionário aplicado aos funcionários após o uso do equipamento. Assim, o projeto não ficou apenas na construção de um protótipo. A solução foi levada à rotina de propriedades reais para observar seu comportamento na prática.

De 50 para 10 segundos por bezerra

Um dos resultados que mais chama atenção está no tempo necessário para fornecer o leite. Nos testes apresentados pelos alunos, o método convencional levou, em média, 50 segundos para o fornecimento de 3 litros por bezerra. Com o MILKCAR, a média foi de 10 segundos.

No teste com seis bezerras, o processo passou de cinco minutos para um minuto. No teste com 43 animais, caiu de aproximadamente 35,8 minutos para 7,2 minutos. Ou seja, o ganho de eficiência se torna ainda mais perceptível à medida que aumenta o número de animais atendidos. Esse é um bom exemplo de como pequenas soluções de tecnologia no campo podem interferir diretamente na rotina operacional.

E a temperatura do leite?

Ganhar velocidade não adiantaria se o processo comprometesse um aspecto importante do aleitamento. Por isso, os estudantes também acompanharam a temperatura. Antes da utilização do MILKCAR, o leite apresentava média de 38 °C, mas com oscilações de 1 °C a 2 °C entre o primeiro e o último balde distribuído. Durante o teste com o equipamento, a temperatura foi mantida em 38 °C.

Esse resultado é especialmente relevante porque o próprio estudo aponta que, no aleitamento artificial, a temperatura do leite é um dos fatores que precisam ser observados durante o fornecimento. Assim, o protótipo buscou combinar dois objetivos: agilidade na operação e manutenção das condições necessárias ao manejo.

Menos esforço também é ganho de produtividade

Os resultados não ficaram restritos ao cronômetro. Após utilizar o MILKCAR, os trabalhadores responderam a perguntas sobre conforto e utilidade do equipamento. Os participantes relataram conforto durante a operação e avaliaram positivamente sua praticidade e potencial de uso na rotina das propriedades.

Esse aspecto ajuda a ampliar o significado de produtividade. Na agropecuária, ganhar eficiência não precisa significar apenas produzir mais. Também pode significar organizar um processo para exigir menos esforço, reduzir tarefas repetitivas e oferecer melhores condições para quem trabalha.

É uma lógica que também se aproxima da pecuária de precisão: observar a rotina, identificar pontos de melhoria e utilizar recursos tecnológicos para tornar as decisões e os processos mais eficientes.

Tecnologia no campo também nasce de problemas simples

O MILKCAR mostra uma perspectiva importante sobre inovação. Nem toda transformação tecnológica começa com uma grande estrutura ou um investimento elevado. Às vezes, ela começa com alguém observando uma tarefa cotidiana e perguntando:

Existe uma maneira melhor de fazer isso?

O protótipo foi desenvolvido com materiais reutilizados e de baixo custo e, nos testes realizados, apresentou ganhos de eficiência, manutenção da temperatura do leite e maior conforto para os trabalhadores. Os próprios autores apontam que a solução ainda pode ser aprimorada e recomendam novos testes em propriedades de diferentes portes e sistemas de manejo.

É justamente esse processo de observar, testar, medir e melhorar que transforma conhecimento técnico em aplicação prática. E também mostra que a formação profissional pode ir além de aprender procedimentos já existentes: o estudante pode identificar problemas reais do campo e desenvolver novas respostas para eles.

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Este conteúdo foi elaborado com base no Trabalho de Formação Técnica “MILKCAR: Otimizando o aleitamento e a produtividade na fazenda”, desenvolvido pelos alunos Hugo Marcondes Rotatori Viana, João Vitor Fortes de Sales, Maria Luiza Martins de Oliveira e Rafael Otavio Santos Rodrigues, do curso Técnico em Agropecuária com foco em Bovinocultura Leiteira da Academia do Leite/Fundação Roge, sob orientação de Inaiá Roberta da Silva Eloy, em 2025.

 

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