A sanidade bovina é um dos pilares da pecuária leiteira e começa muito antes da produção de leite. Na prática, um dos momentos mais críticos para a saúde do rebanho está nas primeiras horas de vida, durante a criação de bezerras leiteiras. É nesse período que se define grande parte do desempenho futuro dos animais, impactando diretamente a produtividade e a eficiência da fazenda.
E tudo começa com um elemento essencial: o colostro.
Diferente de outras espécies, os bovinos não recebem imunidade durante a gestação. Isso acontece porque a estrutura da placenta impede a transferência de anticorpos da mãe para o bezerro. Por isso, a ingestão de colostro logo após o nascimento é fundamental para garantir a chamada imunidade passiva.
O colostro é rico em imunoglobulinas, especialmente a IgG, que atua diretamente na proteção contra doenças em bovinos de leite nas primeiras semanas de vida.
Sem esse suporte inicial, o animal se torna mais vulnerável a infecções, o que pode comprometer seu desenvolvimento e até sua sobrevivência.
Apesar de essencial, o colostro pode se tornar um risco quando não é manejado corretamente. Na prática, ele pode apresentar contaminação por microrganismos como Escherichia coli, Salmonella e Mycoplasma, afetando diretamente a sanidade bovina e a eficiência da transferência de imunidade.
Esse cenário impacta não apenas a saúde das bezerras, mas também indicadores produtivos e econômicos da fazenda. Além disso, colostros com alta carga microbiana podem reduzir a absorção de imunoglobulinas no intestino, comprometendo todo o processo de imunização natural do animal.
Para reduzir a contaminação, muitas propriedades utilizam a pasteurização térmica do colostro. Esse método, que consiste no aquecimento controlado, é eficiente na redução da carga microbiana, contribuindo para melhorar a qualidade do leite e a saúde do rebanho.
Porém, ele apresenta uma limitação importante: pode comprometer componentes bioativos, como as imunoglobulinas. Ou seja, ao mesmo tempo em que reduz microrganismos, pode afetar a principal função do colostro: garantir imunidade.
Diante dessas limitações, novas soluções vêm sendo exploradas dentro da tecnologia no campo. Uma delas é o uso da radiação ultravioleta tipo C (UV-C), que possui ação germicida e atua diretamente na destruição do DNA de microrganismos, sem necessidade de calor.
Essa tecnologia apresenta vantagens importantes:
Redução eficiente da carga microbiana.
Preservação dos componentes nutricionais.
Processo rápido e sustentável.
Aplicação prática no dia a dia da fazenda.
Para avaliar a eficiência dessa tecnologia, foi desenvolvido um protótipo de pasteurização por UV-C e realizados testes com colostro bovino. As análises consideraram dois fatores principais:
Qualidade imunológica (por meio do teste de BRIX).
Qualidade microbiológica (teste de redutase).
Os resultados mostraram melhorias relevantes no manejo do colostro. Entre os principais destaques, foram observados:
Redução significativa da carga microbiana.
Manutenção da concentração de imunoglobulinas (IgG).
Melhoria na qualidade microbiológica do colostro.
Maior segurança no fornecimento para bezerras.
O tratamento com exposição de aproximadamente 5 minutos apresentou o melhor desempenho, aumentando o tempo de descoloração no teste de redutase — indicador de menor contaminação.
Além disso, mesmo após diferentes tempos de exposição, não houve redução nos níveis de IgG, mantendo a capacidade imunológica do colostro.
Na prática, isso significa que é possível reduzir riscos sanitários sem comprometer a imunidade das bezerras.
A melhoria no manejo do colostro tem impacto direto em diferentes áreas da produção:
Redução de doenças na fase inicial.
Melhoria no desempenho da bezerra.
Aumento da eficiência produtiva.
Maior longevidade dos animais.
Além disso, práticas que melhoram a saúde desde o início contribuem para o bem-estar das bezerras, reduzindo estresse, morbidade e necessidade de intervenções futuras.
O uso de soluções como a radiação UV-C mostra como a pecuária leiteira está evoluindo. Hoje, produzir não é apenas uma questão de rotina, é uma combinação de conhecimento técnico, inovação e tomada de decisão.
A aplicação de tecnologias acessíveis e eficientes no dia a dia da fazenda é um dos caminhos para melhorar a sanidade bovina e alcançar melhores resultados.
Na prática, entender esses processos é essencial para quem deseja atuar no agro de forma mais estratégica. Na FUNDAÇÃO ROGE, os alunos têm contato direto com situações reais da produção, desenvolvendo projetos que conectam teoria, prática e inovação.
É dessa forma que o conhecimento se transforma em resultado no campo e prepara profissionais mais completos para os desafios da pecuária leiteira.
Texto baseado no Trabalho de Formação Técnica: “NEOSHIELD UV-C: Um pasteurizador de colostro com luz UV-C”, desenvolvido pelos alunos Daniela Maiara Silva, Gabriel Nogueira Ribeiro, Nicoly Paiva Fernandes e Sofia Leonel Dias, da Academia do Leite/Fundação Roge, orientados pela professora Inaiá Roberta da Silva Eloy, em 2025.