A fase inicial da vida e do aleitamento das bezerras é uma das mais decisivas para o futuro produtivo do rebanho. É nesse período que se define grande parte da saúde, do desenvolvimento e do desempenho dos animais ao longo da vida.
Um dos principais fatores dessa etapa é a imunidade e, ao contrário do que muitos imaginam, ela não começa dentro do útero.
Diferente de outras espécies, os bovinos não recebem anticorpos da mãe durante a gestação. Isso acontece por conta do tipo de placenta, que impede a passagem de imunoglobulinas para o feto. Ou seja, as bezerras nascem praticamente sem defesa imunológica.
Por isso, o fornecimento de colostro logo após o nascimento não é apenas importante — é essencial. O colostro é a primeira fonte de proteção para o animal recém-nascido. Ele é rico em imunoglobulinas (especialmente IgG), nutrientes essenciais e fatores de crescimento.
Esses componentes são responsáveis por garantir a chamada imunidade passiva, protegendo a bezerra nas primeiras semanas de vida. Quando esse processo falha, o impacto é direto com maior risco de doenças, aumento da mortalidade e queda no desempenho produtivo.
Mesmo quando o colostro é fornecido, alguns fatores podem comprometer sua eficácia. Entre os principais:
1. Qualidade do colostro
Colostros com baixa concentração de imunoglobulinas não oferecem proteção adequada.
2. Tempo de fornecimento
A absorção de anticorpos é mais eficiente nas primeiras horas de vida. Atrasos reduzem drasticamente esse processo.
3. Manejo inadequado
Armazenamento incorreto, contaminação e falhas na oferta comprometem os resultados.
4. Contaminação microbiológica
Esse é um dos pontos mais críticos e muitas vezes negligenciado. O colostro pode conter microrganismos como:
Escherichia coli
Salmonella spp.
Mycoplasma spp.
Essas bactérias não só aumentam o risco de doenças, como também dificultam a absorção das imunoglobulinas.
A presença de microrganismos no colostro afeta diretamente a imunidade das bezerras. Isso acontece porque:
as bactérias competem com as imunoglobulinas no intestino
reduzem a absorção de anticorpos
aumentam o risco de infecção precoce
Ou seja, não basta fornecer colostro — ele precisa estar em condições adequadas.
Para reduzir a carga microbiana, muitas propriedades utilizam a pasteurização térmica do colostro. Esse método é eficaz na eliminação de microrganismos, mas apresenta um desafio importante: pode comprometer proteínas bioativas, como as imunoglobulinas
Isso significa que, embora reduza bactérias, pode também reduzir a qualidade imunológica do colostro.
Com o avanço da tecnologia, novas soluções vêm sendo estudadas para equilibrar segurança microbiológica e qualidade nutricional. Uma dessas alternativas é o uso da radiação UV-C. Essa tecnologia atua diretamente no DNA dos microrganismos, promovendo sua inativação sem necessidade de aquecimento.
Entre os principais benefícios:
redução eficiente da carga microbiana
preservação das imunoglobulinas
processo rápido
menor impacto na qualidade do colostro
Estudos mostram que o uso da UV-C pode manter estáveis os níveis de IgG, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade microbiológica do colostro.
Avaliações realizadas em propriedades leiteiras analisaram o impacto do controle sanitário e da qualidade do colostro na imunidade inicial das bezerras. Os testes foram conduzidos em condições reais de campo, com análises antes e depois da aplicação de métodos de controle no manejo.
Os resultados demonstraram melhorias importantes em fatores diretamente ligados à saúde e ao desenvolvimento dos animais. Entre os principais pontos observados, destacam-se:
Redução da carga microbiana no colostro utilizado na alimentação inicial;
Melhora na qualidade sanitária do colostro fornecido às bezerras;
Preservação de componentes essenciais, como as imunoglobulinas (IgG);
Maior estabilidade dos parâmetros de qualidade após o controle aplicado.
Em análises laboratoriais, as amostras submetidas a controle apresentaram melhor desempenho microbiológico, indicando menor presença de agentes contaminantes e maior segurança no fornecimento.
Na prática, isso reforça que a qualidade do colostro vai além da nutrição — ela é determinante para a construção da imunidade das bezerras. O controle adequado do manejo, aliado à atenção à higiene e à qualidade do colostro, contribui diretamente para reduzir riscos sanitários, melhorar o desenvolvimento dos animais e aumentar a eficiência da produção leiteira.
A imunidade das bezerras começa nas primeiras horas de vida e qualquer falha nesse processo pode comprometer todo o bem-estar das bezerras. Por isso, compreender os fatores que influenciam a qualidade do colostro e adotar práticas mais eficientes de manejo é essencial para uma produção mais sustentável e produtiva.
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