Trabalhar no campo envolve atividades que, muitas vezes, são repetidas todos os dias. Limpar instalações, transportar alimentos, manejar animais, realizar a ordenha e cuidar dos diferentes espaços da propriedade fazem parte de uma rotina em que o esforço físico pode parecer algo natural.
Mas a forma como essas tarefas são realizadas merece atenção. Posturas inadequadas, movimentos repetitivos e esforço excessivo podem afetar a saúde de quem trabalha e ainda tornar as atividades rotineiras mais demoradas e desgastantes.
É justamente nesse ponto que entra a ergonomia no trabalho rural: observar a relação entre a pessoa, a atividade, o ambiente e os equipamentos utilizados para encontrar formas mais adequadas de executar o trabalho.
Foi a partir dessa perspectiva que alunos da Academia do Leite/Fundação Roge desenvolveram um projeto para solucionar um problema bastante específico da rotina de propriedades leiteiras: a limpeza manual dos resíduos alimentares na pista de trato.
A solução criada foi uma escova rotativa. Nos testes realizados pelos estudantes, o equipamento não apenas melhorou a postura durante a atividade como também reduziu em aproximadamente 31,6% o tempo necessário para a limpeza.
A ergonomia busca adaptar as condições de trabalho às capacidades e limitações das pessoas.No ambiente rural, isso significa observar fatores como postura, esforço físico, repetição de movimentos, organização das tarefas, características dos equipamentos e condições do próprio ambiente.
O TFT aponta que a ergonomia aplicada ao meio rural busca minimizar riscos ocupacionais e promover bem-estar, além de estabelecer critérios para equipamentos e adaptar o ambiente de trabalho às características humanas.
Essa discussão ganha importância porque diferentes atividades da agropecuária podem envolver esforço físico intenso. Ordenha, limpeza de currais e transporte manual de alimentos estão entre os exemplos citados no estudo como tarefas que podem expor trabalhadores a esforço excessivo e posturas inadequadas.
Por isso, ergonomia não significa apenas proporcionar conforto. Ela também está relacionada à prevenção e à maneira como o trabalho é organizado e executado.
Uma tarefa pode fazer parte da rotina da fazenda há anos e, ainda assim, não ser executada da melhor maneira. Alguns pontos podem servir de alerta:
Observar esses fatores permite identificar oportunidades de mudança. E isso também faz parte da gestão de fazendas. Gerenciar uma propriedade não significa olhar apenas para indicadores financeiros ou produtivos. É preciso entender como pessoas, equipamentos e processos estão organizados para que a operação funcione.
Foi justamente uma atividade aparentemente simples que chamou a atenção dos alunos da Academia do Leite: a limpeza da pista de trato. Durante pesquisas e visitas técnicas a propriedades rurais, eles observaram que a execução manual dessa tarefa exigia elevado esforço físico e frequentemente fazia com que os trabalhadores adotassem posturas inadequadas.
O estudo relaciona essa condição a possíveis prejuízos à saúde ocupacional, especialmente devido aos riscos musculoesqueléticos associados à atividade. Na produção leiteira, a pista de trato faz parte da rotina de fornecimento de alimentos aos animais. Consequentemente, também exige limpeza frequente dos resíduos.
Seria possível executar essa mesma atividade de maneira mais ergonômica e eficiente?
O projeto partiu de um protótipo desenvolvido anteriormente e buscou aperfeiçoá-lo para utilização nas propriedades. A versão adaptada consiste em uma vassoura rotativa acoplada a um motor de roçadeira.
O motor substituiu o sistema elétrico da versão anterior, eliminando a necessidade de tomada e fiação durante o uso. A mudança buscava proporcionar maior alcance e facilidade na execução da atividade e reduzir riscos relacionados aos fios durante o manuseio.
O mecanismo foi desenvolvido para realizar a varrição e direcionar os resíduos para dentro do cocho. Acelerador e embreagem foram posicionados junto ao punho de comando para permitir o manuseio do equipamento de forma mais prática e com postura corporal adequada. É um exemplo interessante de como a inovação pode surgir da observação de um problema específico da rotina.
Depois do desenvolvimento do equipamento, partiram para os testes em propriedades leiteiras. A comparação foi realizada em um trecho de nove metros, utilizando tanto o método tradicional quanto o protótipo.
Com a vassoura de madeira, o tempo médio de limpeza foi de: 45,66 segundos.
Com a escova rotativa: 31,22 segundos.
Isso significa que o protótipo proporcionou uma redução aproximada de 31,6% no tempo de execução da atividade. Mas talvez o resultado mais diretamente relacionado à proposta do projeto esteja na postura.
No método manual, o trabalhador permanecia frequentemente inclinado durante a limpeza. Com o equipamento, foi possível realizar a atividade mantendo uma postura mais ereta e natural, com redução do esforço físico.
As fotografias registradas pelos próprios alunos evidenciam essa diferença ao comparar a postura utilizando a vassoura tradicional com aquela adotada durante o uso do protótipo.
Quando falamos em tecnologia no campo, é fácil associar o conceito apenas a equipamentos sofisticados. Mas o projeto desenvolvido pelos estudantes mostra outro caminho.
Uma solução tecnológica também pode nascer da adaptação de equipamentos já existentes para resolver um problema concreto. Essa lógica se aproxima inclusive da pecuária de precisão: observar processos, coletar informações e utilizar recursos de maneira mais direcionada para melhorar a tomada de decisão e a eficiência da propriedade.
No projeto, os estudantes partiram de uma atividade real, observaram esforço e postura, modificaram um equipamento e compararam o tempo de execução antes e depois.
Ou seja, a tecnologia não apareceu como um fim. Ela foi utilizada como resposta a uma necessidade identificada na propriedade.
Um dos pontos mais interessantes do projeto é que melhorar as condições de trabalho não significou tornar o processo mais lento. Aconteceu justamente o contrário.
Além da redução do esforço físico e da melhoria da postura, houve uma diminuição de 31,6% no tempo de limpeza. Os produtores participantes também demonstraram satisfação com a praticidade, a ergonomia e a eficiência do equipamento.
Esse resultado ajuda a mostrar por que a ergonomia também pode ser considerada dentro da gestão de fazendas. Ao analisar as atividades da propriedade, vale perguntar não apenas se uma tarefa está sendo realizada, mas como ela está sendo realizada.
Existe uma maneira de reduzir movimentos? Um equipamento poderia facilitar o processo? A atividade exige uma postura inadequada? É possível diminuir o esforço sem comprometer o resultado? Quanto tempo aquela tarefa consome diariamente? Perguntas simples podem revelar oportunidades importantes de melhoria.
O projeto da escova rotativa mostra que inovar não significa necessariamente transformar toda a estrutura de uma propriedade. Às vezes, o primeiro passo é observar melhor aquilo que já acontece todos os dias.
Na rotina da produção leiteira, existem inúmeras atividades que podem ser analisadas sob essa perspectiva. Algumas podem demandar novos equipamentos; outras, adaptações; e outras podem ser melhoradas apenas com mudanças na organização do trabalho.
A ergonomia no trabalho rural ajuda justamente a colocar as pessoas no centro dessa análise. No caso estudado pelos alunos da Academia do Leite, uma dificuldade observada durante a limpeza da pista de trato deu origem a uma solução que conseguiu combinar melhoria postural, menor esforço físico e ganho de eficiência.
O próprio trabalho conclui que soluções tecnológicas simples e acessíveis, quando associadas aos princípios da ergonomia, podem contribuir tanto para ganhos produtivos quanto para melhores condições de trabalho no meio rural.
Artigo baseado no Trabalho de Formação Técnica “Ergonomia aplicada à limpeza de resíduos alimentares na pista de trato com a utilização da escova rotativa”, desenvolvido pelos alunos Ana Luísa Rodrigues de Paiva, Alice Vitoria Marcelo, Breno da Silva Prado e Marcus Henrique Moreira de Souza, da Academia do Leite/Fundação Roge, orientados pelo professor Thiago Morais Duarte, em 2025.