As primeiras horas após o nascimento representam uma fase de adaptação intensa para as bezerras leiteiras. Ao deixar o ambiente intrauterino, o animal passa a enfrentar variações de temperatura, umidade e vento enquanto seu organismo ainda possui mecanismos limitados para controlar a própria temperatura corporal.
Por isso, o conforto térmico de bezerras merece atenção desde o nascimento. Quando exposto ao frio, o neonato precisa direcionar parte da energia disponível para manter sua temperatura corporal. Essa condição pode interferir no desenvolvimento inicial e no aproveitamento da energia proveniente do colostro.
Entender a relação entre ambiente, termorregulação, colostragem e desenvolvimento é, portanto, parte importante dos cuidados durante as primeiras 72 horas de vida.
Bezerras recém-nascidas apresentam pouca gordura corporal e mecanismos de termorregulação ainda imaturos. Isso faz com que sejam mais vulneráveis às condições ambientais, especialmente em locais ou períodos caracterizados por temperaturas baixas.
O problema não está apenas na sensação de frio. Para manter a homeotermia, o organismo utiliza energia. Nos primeiros dias de vida, essa energia também é necessária para processos importantes relacionados ao crescimento e à adaptação do animal.
Por isso, condições ambientais inadequadas podem representar um desafio adicional justamente em uma das fases mais sensíveis da criação de bezerras.
É nesse ponto que a discussão sobre estresse térmico em bovinos também precisa considerar os animais jovens. Embora o tema seja frequentemente associado às vacas adultas e às altas temperaturas, as condições térmicas adversas também merecem atenção no manejo neonatal.
O colostro é fundamental para o início da vida da bezerra. Além de fornecer energia e nutrientes, é fonte de imunoglobulinas responsáveis pela transferência de imunidade passiva. Entretanto, uma boa colostragem não depende apenas de oferecer o alimento.
Qualidade, quantidade, momento do fornecimento e condições enfrentadas pelo animal fazem parte desse processo. O trabalho técnico desenvolvido pelos alunos da Fundação Roge destaca que a exposição ao frio pode aumentar o gasto energético necessário para manutenção da temperatura corporal. O manejo das primeiras horas, portanto, precisa ser observado de maneira integrada.
No projeto, por exemplo, a qualidade do colostro foi acompanhada por refratômetro Brix, enquanto a vitalidade dos animais foi avaliada por meio do escore APGAR adaptado para bovinos.
Isso mostra como diferentes indicadores podem contribuir para uma visão mais completa do desenvolvimento neonatal.
O princípio do conforto térmico não é simplesmente “aquecer” o animal. O objetivo é proporcionar condições ambientais adequadas para que ele consiga manter sua estabilidade fisiológica sem gasto energético excessivo.
Cama seca e limpa, proteção contra vento e umidade, observação das condições ambientais e acompanhamento do animal são fatores que precisam ser considerados dentro de uma estratégia de manejo racional.
Foi a partir dessa problemática que alunos da Academia do Leite desenvolveram uma estufa de termorregulação destinada às primeiras 72 horas de vida dos neonatos.
O protótipo utilizou uma estrutura de madeira, cama seca e uma fonte de aquecimento controlada por termostato digital. Durante a aplicação, os animais permaneceram na estrutura por três dias e foram acompanhados por meio de parâmetros relacionados à temperatura, comportamento, ganho de peso, colostragem e vitalidade.
Os testes foram realizados na Fazenda Capituba, com neonatos da raça Holandesa. O projeto acompanhou quatro animais e avaliou indicadores como peso, Brix, vitalidade neonatal e condições térmicas.
Durante o experimento, a temperatura interna da estufa foi mantida entre 36 °C e 37 °C. Os animais apresentaram escores APGAR entre 7,5 e 9, classificados no trabalho como bons a excelentes, além de resultados de Brix sanguíneo próximos de 9%.
Os autores também observaram ganho de peso durante o período avaliado e relacionaram os resultados ao ambiente protegido, à colostragem e ao manejo adotado.
É importante, porém, interpretar esses dados dentro dos limites do próprio projeto. O número de animais avaliados foi reduzido e o trabalho recomenda ampliar a amostra e comparar diferentes condições em estudos futuros.
Assim, os resultados não devem ser entendidos como uma regra aplicável automaticamente a qualquer propriedade, mas como uma experiência prática que ajuda a investigar alternativas para o manejo neonatal em regiões de baixas temperaturas.
Pensar em bem-estar animal significa considerar as necessidades do animal em cada etapa de sua vida — inclusive nas primeiras horas após o nascimento.
No caso das bezerras, isso envolve observar de maneira conjunta ambiente, temperatura, colostragem, vitalidade e desenvolvimento.
Mais do que uma medida isolada, o conforto térmico faz parte de um conjunto de decisões de manejo. Proteger o animal de condições adversas, acompanhar sua resposta e garantir uma colostragem adequada são cuidados que contribuem para uma adaptação neonatal mais favorável.
A experiência desenvolvida pelos alunos mostra também como desafios encontrados nas propriedades podem se transformar em oportunidades de pesquisa, experimentação e desenvolvimento de soluções aplicáveis à realidade da pecuária leiteira.
Na prática, compreender a termorregulação de bezerras, a colostragem e os indicadores de desenvolvimento neonatal exige integrar diferentes conhecimentos da bovinocultura leiteira.
Os cuidados nas primeiras horas de vida mostram como diferentes fatores estão conectados na produção leiteira. Temperatura, colostragem, ambiente e manejo podem influenciar o desenvolvimento das bezerras e, por isso, exigem atenção do produtor desde o nascimento.
Entender essas relações ajuda a tomar decisões mais conscientes na propriedade e a aprimorar continuamente o manejo do rebanho.
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Texto baseado no Trabalho de Formação Técnica “Desenvolvimento em Neonatos: utilização de controle térmico, por estufa de termorregulação e avaliação da colostragem”, desenvolvido pelos alunos Luigi Henrique Silva e Souza, Lucas Alexandre Ferreira Ramos, Giovana de Oliveira Rodrigues e Rafael Pereira dos Anjos, da Academia do Leite/Fundação Roge, orientados por Bruno Guimarães Salomon, em 2025.